Sentados lado a lado no ônibus, seguíamos rumo ao centro da cidade. De repente, um salto de sapato, alto, brilhante, vai e volta no corredor. Sobe a ladeira ... o salto desce. Desce a ladeira... o salto sobe. E ela dá gargalhadas a cada movimento do salto. Gargalhadas de ironia. “De quem será? Quem vai descer manquitolando? Ah,ah, ah! Perder um salto de sapato... o que mais não perderá? Qual será a marca do sapato? Deve ser de camelô. E a viagem prosseguia como todas as viagens. É sempre bom viajar, conhecer lugares, conhecer pessoas, mesmo que essa viagem seja dentro de sua própria cidade, em ônibus circular. Melhor ainda é viajar dentro de você mesmo. Conhecer seus medos, suas frustrações, suas alegrias, viajar... viver... Como disse Rubem Alves * “A vida não suporta mesmice. Nascer, crescer, envelhecer. Nenhuma planta é igual a si mesma num momento subsequente de tempo. As pedras nem nascem, nem crescem, nem envelhecem, nem se reproduzem. São eternas. São sempre as mesmas. MORTAS.”
Pessoas são VIVAS, viajam e encontram saltos soltos pela vida. E por falar em salto, o coitado se esfolava de um lado para outro, e ela gargalhava a cada movimento. Uns desciam, outros subiam, e nada.. ele continuava ali, a mercê da vida, ridicularizado.
De repente, fim de linha. Todos se levantam e vão saindo. E subtamente alguém ao meu lado, apoia-se em meu ombro, quase cai. E não consegue andar. Falta –lhe alguma coisa. O que seria? Um apoio? Teria sentido dores no joelho, nos pés? NÃO?! Falta-lhe um salto. Constrangedor.. irônico... cômico?! O salto lhe faltava. Quanto dói a falta de um salto de sapato! O pior é não poder sorrir.
E nós? Eu e você, quantos saltos de sapatos dos outros vemos pelo chão? Quantos saltos já perdemos em nossa vida? Pena que às vezes é mais fácil enxergarmos os saltos dos outros caídos pelo chão da vida. Somos capazes de rir, de vigiar quem vai andar sem ele. Quem vai cair. E muitas vezes fazemos isso deitados, caídos no chão da nossa hipocrisia, da nossa ignorância, de nossa estupidez.
Examine os seus sapatos antes de rir de algum salto solto, perdido pelo chão.
( Luzete de Fátima Valente Teixeira. Julho de 2005.)
* Rubem Alves. Transparência da eternidade. P.86.